O Filme. O Trailer. O Poster. O Video-Clip. O Actor. A Actriz. O Realizador. Cinema enquanto passatempo, paixão e vício.
publicado por Fernando Oliveira | Segunda-feira, 04 Fevereiro , 2008, 01:40
Porque é que os portugueses não vão ver o Cinema produzido para eles? É uma questão que preocupa qualquer pessoa que olhe para os números das bilheteiras com alguma honestidade intelectual. Será natural que os filmes nacionais mais vistos tenham muita sorte em atingir a marca dos cinquenta mil espectadores? (refiro o número de cabeça, se verificar que me enganei, será corrigido)
Apatia do público, simples dessinteresse, ou haverá uma questão de fundo mais importante que interessa analisar? Concerteza não será dessinteresse pelo Cinema em si, enquanto Arte, afinal outrs filmes que estreiam nas salas portuguesas apresentam sempre espectadores em números respeitáveis. Olhando para as listas dos mais vistos nos países vizinhos (França, Espanha), encontramos sempre alguns filmes nacionais na lista dos mais vistos do ano. Porque será que existe esta especificidade portuguesa, será algo mais de que nos teremos de orgulhar, tal como os salários mais "competitivos" da zona Euro?
É uma questão complexa, senão mesmo "A Questão" que interessa resolver se queremos uma indústria cinematográfica pulsante e viva, ao contrário do parasitismo que observamos agora. É óbvio que exitem filmes que escapam à lógica (peversa) dos subsídios e que conseguem esse crime de levar espectadores portugueses às salas de cinema a ver filmes nacionais. Quais são? São os "Filmes da Treta", os "Crimes do Padre Amaro" e quejandos, por serem produzidos com o intuito de levar espectadores às salas, apontam ao menor denomidador comum da culura de massas e, por isso mesmo, não primam por uma qualidade que contribua para um enriquecimento de quem assiste.
Há aqui um desiquilibro enorme. Por um lado temos o Cinema dito Comercial, que aponta ao retorno do investimento financeiro, e por outro temos o Cinema apoiado em subsídios, dito de Autor, enquarado no entanto, pelos agentes, por uma Política do Autor demasiado espartilhante, sem grandes preocupações com a relação com público. Falta aqui o Cinema intermédio, capaz de mostrar marcas de autor relevantes, de contar uma estória com pés e cabeça e ainda de levar o público às salas, fruto do apelo que seja capaz de emanar.
Num texto sobre o Ministério da Cultura António-Pedro Vasconcelos reflecte sobre isso mesmo:
Estado continua a chamar a si a decisão sobre os filmes que os portugueses merecem ou não ver nos ecrãs. Essa política criou um parasitismo tenaz, que se alicerçou: 1) num sistema de júris, onde têm assento críticos de cinema e criaturas afins; 2) numa crítica que, depois, naturalmente, defende os filmes que havia apoiado nos júris; 3) numa Escola Superior de Cinema que formata as novas gerações no culto do mestre Manuel de Oliveira; 4) na Cinemateca Portuguesa, onde o Dr. Bénard da Costa se encarrega de abençoar ou excomungar as obras e os ‘autores’ da sua preferência (as mesmas), num ciclo vicioso que perpetua ad nauseam uma ‘ideia’ da 7ª Arte, que assenta na ideia peregrina de que 1) um filme não serve para contar uma história; 2) os ‘autores’ devem ser livres de quaisquer constrangimentos económicos, porque a dependência das receitas é uma ameaça à sua liberdade; 3) o Estado deve, portanto, protegê--los do mercado através de subsídios, porque o dinheiro público é mais puro do que o dinheiro da bilheteira.
Este ciclo vicioso do qual fala o realizador é precisamente o que tem minado o desenvolvimento eficaz da Indústria Cinematográfica nacional. A perpetuação da ideia do apelo ao público como ago impuro e capaz de conspurcar a obra que é, incosncientemente, passado pela política de subsídios a autores com vários anos no meio está a sufocar a capacidade de novos valores surgirem com maior regularidade, com ideias novas, uma noção diferente da relação com o público e, sobretudo, capazes de oferecer maior variedade a esse mesmo público que gosta do Cinema Português, apenas ainda não o sabe.

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