O Filme. O Trailer. O Poster. O Video-Clip. O Actor. A Actriz. O Realizador. Cinema enquanto passatempo, paixão e vício.
publicado por Fernando Oliveira | Domingo, 18 Maio , 2008, 21:19
MY BLUEBERRY NIGHTS, 2008 - WONG-KAR WAI
Começo este texto por dizer que não conheço a obra anterior de Wong-Kar Wai. Nem sei se é assim que se escrever o nome dele. Agora que já pus toda a gente desse lado a pedir um auto-de-fé à minha pessoa e a ditar sentenças inteligentes do tipo: “só vê vê cinema americano, é só comercial que lhe interessa, nem sequer sabe quem é o grande cineasta experimental romeno Nkinof Andriu”, servindo isto como caução para toda a gente que quer falar sobre Cinema e não sobre filmes...
Pois bem, voltando a Wong-Kar Wai, escrevi no inicio que não conheço a obra deste realizador, no entanto, o zum-zum que o rodeia em todas as revistas da especialidade e sites dedicados ao cinema levaram-me a querer ver por mim próprio o porquê de tão boas indicações.
Comecemos então por falar do filme. Elizabeth é uma jovem cuja sorte ao Amor lhe parece ter escapado. Depois de uma separação tumultuosa, acaba por passar as noites num café, a comer tarte de mirtilo e a falar sobre a Vida, o Amor e Tudo o Mais com o gerente, também ele esquecido por Cupido algures no grande percurso da Humanidade. Uma noite, Elizabeth parte. Faz uma grande viagem por toda a América onde encontra outras personagens também desgostosas com a sorte que o Amor lhes reservou e acaba também por se encontrar a si própria.
Este filme tinha muito para falhar. Primeira incursão no Cinema de uma cantora (essas coisas não costumam resultar muito bem) e como co-protagonista Jude Law (também conhecido como Michael Caine Wannabee). No entanto é mesmo este par que acaba por surpreender e oferecer algumas das melhores cenas do filme. De facto, é o rapport que ambos os actores conseguem estabelecer um dos pontos fortes a destacar nesta primeira incursão de Wong no cinema falado em inglês. Law e Jones apresentam-se aqui como grandes surpresas, ele por contrariar o estereótipo de ser apenas uma cara bonita e conseguir impressionar como ex-maratonista que decidiu deixar de correr até que alguém o apanhe e ela, que, sendo esta a primeira viagem ao mundo do cinema, consegue disfarçar muito bem potenciais falhas. É verdade que a câmara gosta muito de Norah Jones, basta comprovar vendo alguns dos clips das musicas da filha de Ravi Shankar.
O estilo filmico de Wong é qualquer coisa. De notar a tentativa de colocar o espectador no lugar de voyeur nas cenas passadas em Nova iorque, sempre com algo entre a objectiva e os dois protagonistas no interior do café. Aqui também a referir o enorme vigor cromático que o realizador empresta a cada plano, quase como se Nova Iorque fosse uma versão ocidentalizada de Hong Kong, plena de neons e vermelho escarlate. Deliciosa também a brincadeira com a câmara de vigilância do café, que de acordo com a personagem de Jude Law, se “tem sentido mal”, enquanto nos coloca nesse preciso ponto de vista. Querem melhor reflexão sobre os males que afectam o mundo do um simples “mal-estar” que nos faz ver a imagem desfocada e tremida, sem nos conseguirmos focar naquilo que verdadeiramente importa.
Este não é, no entanto, um filme de apenas dois actores. Há também que falar de de David Strathairn, Natalie Portman e Rachel Weisz. Se de Weisz já só esperamos o melhor, aqui a interpretar muito bem a variação do amor ainda adolescente, que terá surgido porventura demasiado cedo e, desse modo, não pode ser devidamente apreciado, Strathairn começa a revelar como um dos actores americanos mais sólidos dos últimos anos. Aqui interpreta o desgosto, a dificuldade em largar aquilo que já não nos quer. É a auto-destruição em forma lenta, sempre um dia mais próximo do fim, sempre a tentar a redenção onde ela não existe. Já Natalie Portman é aqui a personagem menos aproveitada e, porventura, mesmo mais irritante. É a menina mimada que faz de tudo para ter a atenção do pai, mesmo quando não a consegue da maneira que pretende.
Visualmente brilhante, interpretações também acima da média, My Blueberry Nights destaca-se do resto da manada fílmica também pelo enorme cuidado com a direcção artística (delicioso, o vaso onde Law guarda as chaves) e com o som do filme. E sim, quero ver mais filmes com Norah Jones, a câmara gosta dela e isso é meio caminho andado, mas com mais algum trabalho pode estar ali mais uma boa actriz.

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